Descrição
Há momentos em que a fotografia deixa de ser apenas testemunho para se tornar consciência. O trabalho de Mirian Fichtner sobre as enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul pertence a essa linhagem rara de imagens que não apenas registram, mas instauram um campo ético incontornável diante do qual não há neutralidade possível. Assim, com o olhar e a sensibilidade de quem conhece a arte, Eder Chiodetto abre seu texto curatorial sobre o livro Quando começa a chover o coração bate mais forte, de Mirian Fichtner, que, para nossa sorte, terá lançamento em Porto Alegre dia 26 de junho, às 19h, na Cinemateca Paulo Amorim. Na ocasião será exibido o documentário curta-metragem de mesmo nome, sobre as enchentes de maio de 2024 no RS. O filme, assim como o livro, vai além de um registro histórico, mergulha no olhar dos atingidos, tecendo um inventário dos medos, traumas na vida dos que perderam tudo, especialmente as populações periféricas negras, mulheres, idosas e crianças.
Mirian estava em Porto Alegre em maio de 2024. Gaúcha radicada no Rio de Janeiro, havia viajado ao sul para visitar a família quando foi surpreendida pela enchente. “Chovia ininterruptamente há mais de uma semana. Nas periferias e na região metropolitana, os pássaros pararam de cantar. Os cães não latiam. Nada mais parecia ter vida nestes lugares, a não ser a água. O silêncio sinistro e perturbador só era rompido pelo som da urgência dos helicópteros e das ambulâncias. Profissão repórter: me senti convocada. À revelia do luto pela morte recente de minha mãe, fotografar tornou-se imperativo”, refletiu a jornalista e fotógrafa experiente, com uma carreira dedicada ao jornalismo e à arte. “O Rio Grande do Sul estava submergindo e os gaúchos contabilizavam o incalculável de suas perdas. Sem água e luz por dez dias, eu presenciava o inimaginável: o maior desastre por inundação da história do estado, e também um dos maiores ocorridos no Brasil”, prossegue.
E assim, dedicou-se a registar aquele momento tão único quanto assustador, uma tragédia climática anunciada, negligenciada pelo poder público e de proporções que o Brasil ainda não havia visto. O resultado está no livro de Mirian, um relato poético, triste, belo e verdadeiro da enchente de 2024. “Tentei traduzir com imagens o que os números das estatísticas não mostram. A emoção superava as palavras e as imagens falavam por si. A minha sensação era a de estarnum filme de terror, documentando o fim do mundo. Evitei fotografar as pessoas e mostrar seus rostos dilacerados pela dor. Entendi, olhando em seus olhos, que uma fotografia dessas iria simbolicamente prendê-los eternamente àquele momento. Não os fotografar naquela situação era o único manifesto de esperança que eu poderia oferecer. Sim, há imagens que não devem ser feitas. Foi algo que aprendi naqueles dias, diante da dor dos outros”, relembra a autora.
Eder Chiodetto, em seu texto, diz que “ao percorrer estas páginas, somos atravessados
por uma visualidade de alta densidade formal. A composição rigorosa, a leitura aguda da luz e o uso
expressivo da cor, que tensionam até o limite entre o belo e o insuportável, inscrevem o ensaio de Fichtner em uma tradição que dialoga com a pintura, sem jamais abdicar da urgência do real. Há, em suas imagens, um domínio estético que não suaviza a tragédia, mas a torna ainda mais incisiva. É precisamente essa fricção entre forma elevada e conteúdo brutal que faz com que cada fotografia se fixe na memória como um vestígio impossível de apagar.
Na obra de 212 páginas, em papel Matérica Craft 250 g e couche fosco 150 g estão 107 fotografias, intercaladas com os textos de Mirian, de Eder Chiodetto e também de Carlos Nobre e José A. Marengo, que trazem o contexto desta tragédia, com dados estatísticos, estudos e pesquisas. Eles afirmam que o livro e o filme são importantes ferramentas, através das fotografias e do audiovisual, para a conscientização sobre as mudanças climáticas e a urgência de sensibilizar e preparar as populações para os eventos extremos. “As novas gerações devem assumir a liderança na busca de trajetórias de sustentabilidade para o planeta com ênfase em justiça social e climática. Se não mudarmos o rumo do aquecimento global e das práticas devastadoras do meio ambiente, muitas regiões como o Estado do Rio Grande do Sul se tornarão inabitáveis”.












